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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Religião na escola estimula o preconceito e a intolerância

http://pragmatismopolitico.blogspot.com/2010/07/religiao-na-escola-estimula-o.html

segunda-feira, 19 de julho de 2010

 

A professora Débora Diniz, da Universidade de Brasília (UnB) liderou uma pesquisa que apurou que livros didáticos mais aceitos pelas escolas públicas promovem a homofobia e pregam o cristianismo. O estudo gerou o livro Laicidade: O Ensino Religioso no Brasil.

A pesquisa conclui que o preconceito e a intolerância religiosa são inculcados em milhares de crianças e jovens do ensino fundamental brasileiro. Foram analisados os 25 livros de ensino religioso mais usados pelas escolas públicas do país. Os livros foram escolhidos a partir dos títulos mais aceitos pelas escolas do governo federal, segundo informações do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. A imagem de Jesus Cristo aparece 80 vezes mais do que a de uma liderança indígena no campo religioso – limitada a uma referência anônima e sem biografia –, 12 vezes mais que o líder budista Dalai Lama e ainda conta com um espaço 20 vezes maior que Lutero, referência intelectual para o Protestantismo (Calvino nem mesmo é citado).

“O estímulo à homofobia e a imposição de uma espécie de ‘catecismo cristão’ em sala de aula são uma constante nas publicações”, informa uma das autoras do trabalho, a antropóloga e professora do Departamento de Serviço Social, Débora Diniz.

A psicóloga e coautora do livro, Tatiana Lionço, salienta que, antes de ir parar nas mochilas de crianças e jovens, todo material didático passa por uma avaliação de uma banca de profissionais do Programa Nacional do Livro Didático, vinculado ao Ministério da Educação. Todos, menos os de Religião. “Não há qualquer tipo de controle. O resultado é a má formação dos alunos”, comenta.

Ela questiona o modelo de ensino religioso nas escolas do país com base no princípio constitucional de que o Estado deveria ser laico (neutro em relação às religiões). “Se o Estado deveria ser laico, por que ensinar religião nas escolas? Se a religião for tratada na sala de aula, tem de ser de forma responsável e diversificada”, acrescenta.

A discriminação de homossexuais vem junto com a doutrinação religiosa feita às cutas do Estado, em escolas públicas. “Desvio moral”, “doença física ou psicológica”, “conflitos profundos” e “o homossexualismo não se revela natural” são algumas das expressões usadas para tratar das pessoas que optam por ligações com o mesmo sexo. Um exercício com a bandeira das cores do arco-íris acaba com a seguinte questão: “Se isso (o homossexualismo) se tornasse regra, como a humanidade iria se perpetuar?”.

Débora diz que num dos livros didáticos uma pessoa sem religião é associada ao nazismo (que, contraditoriamente, teve apoio ativo da Igreja Católica e foi combatido pela União Soviética, primeiro Estado a adotar expressamente o materialismo dialético no ensino público). “É sugerida uma associação de que um ateu tenderia a ter comportamentos violentos e ameaçadores”, observa. “Os livros usam de generalizações para levar a desinformação e pregar o cristianismo”, completa ela que é uma das três autoras da pesquisa.

“Há uma clara confusão entre o ensino religioso e a educação cristã”, afirma Débora. A antropóloga reforça a imposição do catecismo. “Cristãos tiveram 609 citações nos livros, enquanto religiões afro-brasilieras, tratadas como ‘tradições’, aparecem em apenas 30 momentos”, comenta.

O estudo, realizado entre março e julho de 2009, revela a ligação entre as editoras responsáveis pelas publicações e a doutrinação religiosa. A editora FTD, por exemplo, pertence aos irmãos Maristas, sociedade católica criada em 1817, na França. Também são católicas as editoras Vozes, Paulus Paulinas, Vida e Edições Loyola. “É esse contexto nebuloso de relações e interesses que envolve a pesquisa” diz Débora. Outras das principais editoras do material escolar são a Abril de Educação, líder do mercado, a Ártica, Scipione Saraiva, Moderna e Dimensão.

As 112 páginas da publicação, lançada pelas editoras UnB e Letras Livres, ainda conta com a contribuição da assistente social Vanessa Carrião, do instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero. 

Por Carlos Pompe

 

 

 

terça-feira, 30 de agosto de 2011

ENTRE O AMÉM E O AXÉ -

 O TRÂNSITO RELIGIOSO DE MULHERES
ENTRE O PROTESTANTISMO E AS RELIGIÕES AFRO BRASILEIRAS
Lídia Maria de Lima - Mestranda em Ciências da Religião – UMESP. 

A história do Brasil nos revela que a intolerância religiosa sempre foi um tema presente em nosso país, principalmente no que se refere às religiões  afro-brasileiras, entretanto, nas últimas décadas observa-se um discurso muito mais acirrado contra estas práticas religiosas e esta intolerância parte  principalmente das igrejas neopentecostais. 

Demonizando principalmente os ritos de candomblé e umbanda e realizando cultos de exorcismo, estas igrejas seguem pregando a intolerância e realizando atos de violência contra estes grupos religiosos.

A liberdade religiosa é assegurada em terras brasileiras desde a primeira Constituição Republicana (1891), período em que ocorre a separação legal entre o Estado e a Igreja. Entretanto, até que esta separação torne-se algo real, foram ainda mais três séculos. 

Neste período muitas igrejas protestantes sofreram perseguições e também foram alvo da intolerância. Mas, os que outrora perseguiam, tornaram-se perseguidores e até hoje, as religiões afro-brasileiras são as maiores vítimas desta intolerância, sendo vistas com suspeita e preconceito.

 ler na íntegra no pdf abaixo



Os Ataques Neopentecostais às Religiões Afro-brasileiras e aos Símbolos da Herança Africana no Brasil


 Intolerância religiosa. Impactos do neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro
São Paulo, EDUSP, 2007  
Vagner Gonçalves da Silva
 
Este livro é um esforço coletivo de analisar, sob vários pontos de vista, o impacto do crescimento das igrejas neopentecostais, com seus discursos e práticas de ataque e intolerância religiosa, no campo religioso afro-brasileiro e do Cone Sul e em outras áreas da vida social (direitos civis e discriminação por orientação sexual)
 

Vou colocar aqui alguns trechos da perseguição intolerante que os Pentecostais e outras denominações Evangélicas vem praticando, extraído do pdf que posto na íntegra abaixo.

Prefácio
"Verifica-se no Brasil das últimas duas décadas um acirramento dos
ataques das igrejas neopentecostais contra as religiões afro-brasileiras,
processo extensivo aos países latino-americanos, como Argentina e Uruguai,
para onde tanto essas igrejas como os terreiros de umbanda e
candomblé têm se expandido.

Esse ataque é resultado de vários fatores, entre os quais podemos destacar: a disputa por adeptos de uma mesma origem socioeconômica, o tipo de cruzada proselitista adotada pelas igrejas neopentecostais – com grandes investimentos nos meios de comunicação de massa e o conseqüente crescimento dessas denominações, que arregimentam um número cada vez maior de “soldados de Jesus” – e, do ponto de vista do sistema simbólico, o papel que as entidades afro-brasileiras e suas práticas desempenham na estrutura ritual dessas igrejas como afirmação de uma cosmologia maniqueísta.

Os casos de intolerância, antes apenas episódicos e sem grandes repercussões, hoje se avolumaram e saíram da esfera das relações cotidianas menos visíveis para ganhar visibilidade pública, conforme atestam as freqüentes notícias de jornais que os registram em inúmeros pontos do Brasil.

Igualmente, a reação a estes casos, antes apenas um esboço isolado e tímido de algumas vítimas, agora se faz em termos de processos criminais levados adiante por pessoas físicas ou instituições públicas, como ONGs e até mesmo a Promotoria Pública.

Para que possamos entender melhor a natureza e extensão desses casos de intolerância, foram recolhidas informações sobre eles publicadas na imprensa e na literatura acadêmica dos últimos anos. 

Essas informações, posteriormente, foram sistematizadas e classificadas segundo os seguintes critérios: 
1) ataques feitos no âmbito dos cultos das igrejas neopentecostais e em seus meios de divulgação e proselitismo;
2) agressões físicas in loco contra terreiros e seus membros; 
3) ataques às cerimônias religiosas afro-brasileiras realizadas em locais públicos
ou aos símbolos dessas religiões existentes em tais espaços; 
4) ataques a outros símbolos da herança africana no Brasil que tenham alguma relação com as religiões afro-brasileiras; 
5) ataques decorrentes das alianças entre igrejas e políticos evangélicos e, finalmente; 
6) as reações públicas (políticas e judiciais) dos adeptos das religiões afro-brasileiras. 

A seguir apresento alguns casos representativos de cada grupo.
1) Os ataques feitos no âmbito das práticas rituais das igrejas neopentecostais
e de seus meios de divulgação e proselitismo têm como ponto de partida uma teologia assentada na idéia de que a causa de grande parte dos males deste mundo pode ser atribuída à presença do
demônio, que geralmente é associado aos deuses de outras denominações religiosas. 

Caberia, aos fiéis, segundo essa visão, dar prosseguimento à obra iniciada por Jesus Cristo de combate a tais demônios: “Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo” (1 Jo. 3:8).

O panteão afro-brasileiro é especialmente alvo deste ataque, sobretudo a linha ou categoria de Exu, que foi associada inicialmente ao diabo cristão e posteriormente aceita nessa condição por uma boa parcela do povo-de-santo, principalmente o da umbanda. 

No interior das igrejas neopentecostais são freqüentes as sessões de exorcismo (ou “descarrego”, conforme denominação da Igreja Universal do Reino de Deus – Iurd) dessas entidades, que são chamadas a incorporar para em seguida serem
desqualificadas e expulsas como forma de libertação espiritual do fiel.

 Dos púlpitos, esse ataque estende-se para os programas religiosos (“Fala que Eu te Escuto”, “Ponto de Luz”, “Pare de Sofrer”, “Show da Fé” etc.) transmitidos pela Rede Record (de propriedade da Iurd) e por outras emissoras que tem seus horários comprados pelas igrejas neopentecostais.

Em muitos desses programas são exibidas “reconstituições de casos reais” ou dramatizações nas quais símbolos e elementos das religiões afro-brasileiras são retratados como meios espirituais para a obtenção unicamente de malefícios: morte de inimigos, disseminação de doenças, separação de casais ou amarração amorosa, desavença na família etc. 

São comuns nesses programas os testemunhos de conversão dados por pessoas que se apresentam como antigos freqüentadores de terreiros, que são entrevistados pelo pastor e “confessam” os malefícios que teriam sido feitos com ajuda das entidades afro-brasileiras (chamadas de “encostos”). 

Os testemunhos mais explorados são os dos que se apresentam como ex-sacerdotes das religiões afro-brasileiras, chamados de “ex-pais-de-encosto” que explicam detalhadamente como faziam os despachos e sua intenção malévola. 

A vasta rede de comunicação dessas igrejas inclui ainda programas de rádio, sites na Internet e material de divulgação religiosa (livros, jornais, revistas e folhetos), como a Folha Universal e a revista Plenitude, ambas da Iurd, e os livros best-sellers Orixás, Caboclos & Guias; Deuses ou Demônios?, do bispo Edir Macedo (Iurd), e Espiritismo - A Magia do Engano, do missionário R. R. Soares (Igreja Internacional da Graça de Deus).

2) Insuflados por essa crença, os membros das igrejas neopentecostais
muitas vezes invadem terreiros visando a destruir altares, a quebrar
imagens e a “exorcizar” seus freqüentadores, o que geralmente termina
em agressão física. 

No Rio de Janeiro, umbandistas do Centro Espírita Irmãos Frei da Luz foram agredidos com pedradas pelos freqüentadores de uma IURD situada ao lado desse Centro, na Abolição . 

Uma adepta da Tenda Espírita Antônio de Angola, no bairro do Irajá, foi mantida
por dois dias em cárcere privado numa igreja evangélica em Duque de Caxias, com o objetivo de que esta renunciasse à sua crença e se convertesse ao evangelismo .

Em Salvador, tida como a “capital da macumbaria” ou a “Sodoma e Gamorra da magia negra” pelos neopentecostais, uma iniciada no candomblé teve sua casa, no bairro de Tancredo Neves, invadida por trinta adeptos da Igreja Internacional da Graça de Deus, que jogaram sal grosso e enxofre na direção das pessoas ali reunidas durante uma cerimônia religiosa . 

Essas substâncias também são atiradas em automóveis  que possuem colar de contas (guias) pendurado no espelho retrovisor .

Em São Luis, capital maranhense, alguns fiéis da Assembléia de Deus residentes no bairro acusaram os chefes do Terreiro do Justino, localizado na Vila Embratel, de seqüestro de um bebê, filho de um casal de freqüentadores da igreja que residia na vizinhança. Acreditavam que o bebê teria sido raptado para ser sacrificado nos ritos do terreiro .

Acionaram a polícia, que mesmo sem uma ordem judicial revistou as instalações do templo, incluindo os quartos sagrados interditados aos não-iniciados. Até a geladeira da casa e os carros estacionados no quintal foram alvos da busca policial. A investigação só não foi levada adiante porque os reais seqüestradores da criança foram capturados. O terreiro, fundado há 104 anos, é um dos mais antigos da cidade e vem sofrendo pressões por parte dos evangélicos do bairro para que seja transferido dali . 

Esta é, aliás, uma estratégia dos pastores, que ao se instalarem nos bairros identificam os terreiros da região e estabelecem prazos para fechá-los . No bairro Engenho Velho da Federação, em Salvador, onde existem cerca de dezenove terreiros de candomblé (famosos por sua tradição, como a Casa Branca e o Gantois), o confronto vem se acirrando. 

Para demonstrar sua força, as igrejas evangélicas organizaram uma passeata para intimidar os seguidores dos “demônios” naquele bairro.

Em resposta, o povo-de-santo saiu às ruas vestindo roupas brancas, cor associada à paz e a Oxalá, o orixá da criação, segundo o candomblé. 

Outra manifestação desse tipo de ataque é dificultar, utilizando vários meios, a realização das atividades rituais dos terreiros. Uma mãede-santo da Cidade Tiradentes em São Paulo reclamou de um carro de som, contratado por uma igreja neopentecostal das imediações, que parava ou circulava insistentemente em frente ao seu terreiro para anunciar em alto volume as “sessões de descarrego” realizadas na referida igreja.

3) Quando as atividades religiosas (festas de orixá, oferendas, procissões
etc.) são feitas em lugares públicos (praias, matas, cachoeiras, ruas, largos e ginásios), os adeptos ficam mais expostos a ataques, que englobam desde a simples distribuição aos presentes de panfletos com propaganda contra esses cultos até a tentativa de interrupção forçada dos rituais. 

Durante uma festa de Iemanjá ocorrida na praia do Leme, Rio de Janeiro, neopentecostais pregaram contra a cerimônia com auxílio de alto-falantes e destruíram os presentes ofertados à entidade, associada ao mar. 

O mesmo ocorreu durante uma festa de erês (entidades  infantis) realizada na Quinta da Boa Vista, quando os neopentecostais quebraram imagens e queimaram roupas de santo.

Símbolos das religiões afro-brasileiras colocados em espaços públicos também podem ser atacados. A revitalização do Dique do Tororó, que incluiu a instalação de esculturas dos orixás pela prefeitura de Salvador, rendeu uma série de críticas das igrejas evangélicas, que condenaram esse ato de “enaltecimento de uma religião diabólica”, “associada ao mal”, que precisaria ser “exorcizada”, segundo sua óptica, e não homenageada pelo poder público. 

Argumentando que as imagens dos orixás, mais do que símbolos religiosos específicos, fazem parte da cultura baiana, o poder público assim justificou sua ação. De fato, esculturas e imagens retratando os deuses afro-brasileiros estão dispersas em muitos outros locais da capital baiana, como ruas, praças e edifícios, sendo seus nomes usados inclusive oficialmente para identificar alguns desses locais e estabelecimentos comerciais e culturais. 

Há, entretanto, uma forte oposição a isto. A diretora de uma escola, no bairro de Stella Maris, teve de mandar apagar a figura do orixá Ogum que havia em um painel artístico situado naquele edifício escolar por pressão dos pais evangélicos cujos filhos estudavam ali. 

Em São Paulo, agressões à estátua de Iemanjá, na Praia Grande, como tentativa de depredação, têm sido registradas.

A intolerância religiosa pode se manifestar inclusive no compartilhamento de locais ou transportes públicos, como no caso de uma mulher que por trajar um turbante branco, típico dessas religiões, foi expulsa do ônibus em que viajava na zona norte da cidade carioca.

4) Símbolos da herança africana no Brasil, mesmo que não sejam exatamente religiosos, mas de alguma forma aludam às religiões afrobrasileiras, também são estigmatizados e combatidos. 

No Rio de Janeiro, por influência das igrejas neopentecostais, houve um esvaziamento da bateria mirim da “Toca o Bonde – Usina de Gente”, uma organização não governamental que ensina música às crianças e jovens carentes
moradores em algumas comunidades da região de Santa Teresa. Os pais evangélicos retiraram seus filhos da ONG alegando que o samba está vinculado ao “culto do demônio”.Nessa óptica, escola de samba é,
portanto, “escola do capeta”.

Uma outra face da desqualificação de tais símbolos é, paradoxalmente, a sua “incorporação” nas práticas evangélicas, porém dissociando-os de sua relação com as religiões afro-brasileiras. 

Assim, surge a capoeira de Cristo, evangélica ou gospel, em cujas letras não há referências aos orixás ou santos católicos. 

O I Encontro Nacional de Capoeiristas Evangélicos aconteceu em 2005, em Goiânia, e o tema escolhido foi “Deus – o verdadeiro ancestral da capoeira”. 

Nesse contexto, há uma refutação da contribuição da ancestralidade ou da espiritualidade africana na formação da capoeira, como se vê na menção à “Deus” como o “verdadeiro ancestral” dessa prática que, na sua origem, esteve intimamente relacionada ao candomblé. 

Outro exemplo é o “acarajé do Senhor”, feito por mulheres evangélicas que querem dissociar esse alimento das religiões afro-brasileiras (o acarajé é uma
comida votiva de Iansã) e da imagem das baianas que tradicionalmente o
comercializam vestidas com suas saias brancas e colares de conta (guias),
uma indumentária típica dos terreiros e conhecida nacionalmente.

Com a recente decisão do Ministério da Educação pela inclusão da temática “História e Cultura Afro-brasileira” no currículo oficial da rede de ensino18, livros didáticos abordando o assunto começam a ser produzidos.

Sendo as religiões afro-brasileiras parte dessa história e cultura, suas características têm sido abordadas de forma não sectária ou proselitista, como convém a um material destinado ao ensino laico, humanista e de difusão da tolerância à diversidade cultural. 

Entretanto, colocar nos livros escolares as religiões de origem africana ao lado de religiões hegemônicas, como o cristianismo, dando-lhes o mesmo espaço e legitimidade destas últimas, têm gerado, por si só, protestos. 

Foi o que ocorreu com uma coleção de livros didáticos destinada ao ensino fundamental, lançada por uma editora de São Paulo. 

No volume indicado para a segunda série, no capítulo “Nossas Raízes Africanas”, a autora trata da formação das religiões afro-brasileiras, inclusive com exercícios pedindo para as crianças pesquisarem sobre a história dos orixás. 

Uma coordenadora pedagógica evangélica de Belfort Roxo, Rio de Janeiro, protestou junto à editora alegando que o livro fazia apologia das religiões afro-brasileiras e que não seria adotado em sua escola, onde a maioria dos alunos e professores, segundo ela, era evangélica. 

A mesma coleção também gerou protesto na Câmara da cidade de Pato Branco, Paraná, onde um vereador e pastor evangélico denominou a obra de “livro do demônio” e pediu a cassação da coleção19. 

Vale lembrar que o referido material didático foi avaliado e
obteve parecer muito favorável, sendo recomendado pelo Guia do Plano
Nacional do Livro Didático (PNLD-2004)20.

5) Como se vê neste último caso, com a crescente eleição de candidatos
evangélicos ou de aliados a tais igrejas, a batalha contra outras denominações religiosas também se reflete ou se ampara no campo da representação política. 

Aproveitando-se do poder decorrente desse campo, políticos evangélicos vêm articulando ações antagônicas ao desenvolvimento das religiões afro-brasileiras. 

No Rio Grande do Sul, por pressão desses políticos e com o apoio das sociedades protetoras dos animais, o Código Estadual de Proteção aos Animais tem sido acionado na tentativa de coibir os sacrifícios rituais do candomblé. 

Um parágrafo específico do Código, que não foi aprovado por pressão dos religiosos afro-brasileiros, vedava a realização de cerimônia religiosa que envolvesse a morte de animais. Ainda assim, com base na interpretação do Código tem sido possível ações judiciais contra sacerdotes afro-brasileiros, como
ocorreu com a mãe-de-santo Gissele Maria Monteiro da Silva, de Rio
Grande, condenada a trinta dias de prisão por realizar sacrifícios de
animais em seu terreiro.

6) Diante desses ataques, as reações dos religiosos afro-brasileiros e de seus aliados que eram quase insignificantes há duas décadas têm crescido, mas ainda estão muito longe de representarem um movimento articulado que faça frente à organização dos evangélicos, que cada vez mais se empenham em ocupar espaços estratégicos nos meios de comunicação e nos poderes legislativo e executivo. 

Inicialmente essa reação se fez em forma de protestos como o do deputado estadual e umbandista Átila Nunes, que em 1981 solicitou ao então ministro da
justiça Ibrahim Abi Ackel providências sobre o tema.

No final dessa mesma década, Edir Macedo foi processado pelo Conselho Nacional Deliberativo da Umbanda e dos Cultos Afro-brasileiros por vilipêndio
a culto religioso, calúnia e difamação, o que ocasionou uma breve contenção na intensidade dos ataques nesse período. 

A trégua durou pouco, pois em meados dos anos de 1990 a agressão a uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, feita por um bispo da Iurd durante um
programa televisivo, fato que ficou conhecido como o “chute na santa”,
motivou uma reação de vários segmentos da sociedade brasileira, colocando
essa igreja neopentecostal numa situação difícil.

O episódio foi duplamente exemplar. Primeiro, mostrou que quando os ataques da Iurd se dirigem diretamente aos símbolos de uma religião majoritária e hegemônica, como o catolicismo, sua eficácia é reduzida. O que não ocorre com os ataques às religiões afro-brasileiras, que em geral têm se mostrado eficazes tanto na conversão de adeptos como no comprometimento da imagem pública dessa religiosidade. 

Segundo, mostrou aos adeptos afro-brasileiros a necessidade de reagir de forma cada vez mais organizada para tentar preservar a relativa aceitação e legitimidade conquistadas a duras penas perante a sociedade brasileira.

Assim, nos últimos cinco anos, alguns movimentos de defesa das
religiões afro-brasileiras têm sido criados e, no âmbito jurídico, ações
legais têm sido impetradas pelos babalorixás e ialorixás contra pastores
e/ou suas igrejas.

A Bahia é o Estado onde existe atualmente um número maior de casos registrados de reação. Segundo levantamentos publicados por um jornal, nos últimos sete anos foram registrados quase duzentas reclamações e processos, os quais englobam, entre outras, ações por difamação contra sacerdotes evangélicos e seus seguidores (e também contra alguns padres) por afirmarem publicamente serem as religiões afro-brasileiras demoníacas, distribuírem folhetos com esse conteúdo (geralmente em festas públicas de orixás), apresentarem programas na televisão vilipendiando símbolos dessas religiões ou atacarem terreiros e seus membros. 

Nesses processos, o Ministério Público tem tido uma atuação importante, embora a lentidão das varas judiciais criminais, para onde os processos são enviados, desestimule uma ação sistemática por parte das vítimas. 

Além disso, estas, em geral, não possuem conhecimento suficiente dos mecanismos de funcionamento do poder judiciário para neles atuarem de forma mais incisiva. Considerando tais dificuldades e na tentativa de criar fóruns de debate e rotinas mais ágeis para o encaminhamento desses processos, entidades de defesa dos direitos civis estão propondo inclusive a criação de uma vara específica para os casos de discriminação racial e religiosa.

Apesar das dificuldades, essas ações jurídicas começam a dar resultados
favoráveis aos adeptos das religiões afro-brasileiras. As igrejas evangélicas responsáveis pelos programas considerados ofensivos às religiões afro-brasileiras, e as redes de televisão que os exibem, estão sendo notificadas.

Na Bahia há inúmeros processos em andamento, alguns deles com sentenças outorgadas. O programa “Ponto de Luz”, da Igreja Universal do Reino de Deus, teve seu horário de exibição alterado (reclassificação etária), ficando proibidas as referências pejorativas às religiões afro-brasileiras.

Em São Paulo, as redes de televisão (Record, Rede Mulher e outras) que apresentam programas ofensivos (“Sessão Descarrego”, “Mistérios” etc.) foram condenadas a exibir em sua programação o direito de resposta dos representantes das religiões afro-brasileiras.

O caso mais emblemático de reação é o da mãe Gilda (Gildásia dos Santos e Santos), do Axé Abassá de Ogum, em Itapuã, Bahia, que em 1992 participou em Brasília de um protesto contra o governo Collor, tendo sido fotografada pela revista Veja ao lado de um despacho. Posteriormente, essa imagem foi usada numa edição de 1999 da Folha Universal (publicação da Iurd) ao lado da manchete “Macumbeiros Charlatões Lesam a Bolsa e a Vida dos Clientes – O Mercado da Enganação Cresce no Brasil, mas o Procon Está de Olho”. 

Este fato e a invasão de seu terreiro por membros da Igreja Deus é Amor, que tentaram “exorcizá-la”, levaram a mãe-de-santo a decidir pela ação judicial contra seus agressores e difamadores. Mãe Gilda faleceu em seguida, aos 65 anos, de um infarto fulminante, em conseqüência, segundo sua família, desses  acontecimentos, que a abalaram profundamente. 

Em 2004, a Justiça condenou a Igreja Universal e sua gráfica a indenizar a família da ialorixá em 1,372 milhões de Reais pelo uso indevido de sua imagem (um Real por cada exemplar do jornal publicado com a matéria)34. 

O caráter emblemático deste caso levou nesse mesmo ano a Câmara de Vereadores de Salvador a transformar a data de falecimento da ialorixá, 21.1.2000, em “Dia Municipal de Combate à Intolerância Religiosa”.

O livro Orixás, Caboclos & Guias – Deuses ou Demônios? é outra publicação
que vem sendo questionada na Justiça. Na Bahia, a Procuradoria Estadual enviou à Procuradoria da República um pedido para retirar de circulação o livro considerando seu caráter ofensivo às religiões afrobrasileiras.

No Rio de Janeiro, a Justiça condenou em 2004 a Iurd e a Editora Gráfica Universal, responsável pela publicação do livro, a pagar 120 mil Reais pelo uso indevido da imagem do adolescente Ricardo Navarro, que aparece numa foto, na época com quatro anos de idade, tocando atabaque no terreiro de sua avó, a ialorixá Palmira de Iansã, em Mesquita. Segundo a legenda da foto: “Essas crianças, por terem sido envolvidas com os orixás, certamente não terão boas notas na escola e serão filhos ‘problemas’ na adolescência”. 

A ialorixá já havia processado a editora há 10 anos pelo uso da imagem de três crianças em seu terreiro, que aparece no livro e no jornal Folha Universal para ilustrar uma matéria intitulada “Filhos do Demônio”. A gráfica foi condenada a pagar vinte salários mínimos para as famílias das três crianças. Uma dessas crianças, hoje adolescente, lembra que na época foi alvo de chacota na escola: “Eu fui chamada de macumbeira, que vivia em religião de demônio”.

Percebendo a necessidade de se contrapor e se defender dos ataques
neopentecostais, o povo de santo tem procurado se articular e superar as divergências existentes entre as várias denominações religiosas (candomblé e umbanda, por exemplo) e entre os diferentes modelos de culto existentes no interior destas (candomblé queto e angola, por exemplo). Historicamente essas religiões têm se desenvolvido muito mais por dissidências ou contraposições do que por aglutinação em torno de entidades de representação coletiva. O modelo de organização federativa dos centros espíritas, por exemplo, foi adotado com relativo sucesso pelos terreiros de umbanda, mas pouca influência teve entre os de candomblé.

Mesmo assim, algumas entidades federativas têm procurado encaminhar posições e estabelecer interlocução com outros agentes do poder público,
movimento negro, organizações não governamentais etc.

Na Bahia, o Movimento Contra a Intolerância Religiosa, iniciado em 2000, teve como articuladores vários desses agentes, como a Federação Baiana de Culto Afro, o Centro de Estudos Afro-Orientais (da Universidade Federal da Bahia), o Programa Egbé – Territórios Negros (desenvolvido pela Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço), e vem aglutinando outras instituições afins. 

Em São Paulo, o Instituto da Tradição e Cultura Afro-brasileira (Intecab) e a Comissão de Assuntos Religiosos Afrodescendentes também têm buscado articular a comunidade religiosa, organizando passeatas e atos de protesto contra a descriminação religiosa e alertando sobre a necessidade de eleger políticos comprometidos com a causa religiosa afro-brasileira.

O Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo e a União das Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil também vem atuando por meio de processos
judiciais contra pastores evangélicos38. No Rio Grande do Sul, a Comissão
de Defesa das Religiões Afro-Brasileiras (CDRAB), organizada em 2002, e as federações de cultos da capital gaúcha vêm se articulando tanto para eleger candidatos da comunidade religiosa, como para reagir à ação de políticos evangélicos, como no caso citado acima de tentativa de proibição de sacrifícios de animais nos terreiros.

Outra estratégia de resistência dos afro-brasileiros tem sido buscar apoio no movimento ecumênico, considerando que o ataque neopentecostal também se dirige a outras religiões, principalmente ao catolicismo.

Além do já comentado episódio do “chute na santa”, manifestações públicas de fé católica também têm sido alvo de ataques, como os tumultos provocados por fiéis neopentecostais durante as procissões católicas, como a do Senhor Morto, na Sexta-feira da Paixão39, ou nas romarias populares, como a de Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. 

Sem contar que o próprio papa tem sido visto como “o representante do demônio na terra” padres e bispos geralmente são apontados como praticantes de pedofilia e homoerotismo. 

Por meio desse movimento ecumênico, os cultos afro-brasileiros podem, inclusive, encontrar a solidariedade de igrejas evangélicas que discordam e condenam os ataques realizados pelas denominações neopentecostais mais intolerantes.

Enfim, o desenvolvimento das religiões afro-brasileiras foi marcado pela necessidade de criar estratégias de sobrevivência e diálogo frente às condições adversas. Foram perseguidas pela Igreja Católica ao longo de quatro séculos, pelo Estado republicano, sobretudo na primeira metade do século XX, quando este se valeu de órgãos de repressão policial e de serviços de controle social e higiene mental, e, finalmente, pelas elites sociais num misto de desprezo e fascínio pelo exotismo que sempre esteve associado às manifestações culturais dos africanos e seus descendentes no Brasil. 

Entretanto, desde pelo menos a década de 1960, quando essas religiões conquistaram relativa legitimidade nos centros urbanos, resultado dos movimentos de renovação cultural e de conscientização política, da aliança com membros da classe média, acadêmicos e artistas, entre outros fatores, não se tinha notícia da formação de agentes antagônicos tão empenhados na tentativa de sua desqualificação. 

Portanto, ainda que incipiente, a união de religiosos afro-brasileiros, movimento negro, ONGs, acadêmicos, pesquisadores, políticos, advogados, promotores públicos, entre outros, parece apostar mais uma vez na capacidade de resistência e reação dessas religiões contra um assédio proporcionalmente muito mais eficaz e, a julgar por seu estado atual e crescimento numérico, duradouro.

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para ler o restante acessar o pdf



outro arquivo de Vagner Gonçalves da Silva que complementa o acima





segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

É possível estudar cientificamente a sobrevivência após a morte?

Capítulo publicado em:
Incontri, D. & Santos, FS. A Arte de Morrer – visões plurais. Bragança Paulista, SP. Editora Comenius, 2007. (pag. 36-44)
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http://www.hoje.org.br/site/arq/artigos/20071122-EstudarCientificamenteASobrevivencia.pdf
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Por  Alexander Moreira-Almeida
Psiquiatra, residência e doutorado em Psiquiatria pela FMUSP, pós-doutorado em Psiquiatria pela Duke University, EUA. Professor Adjunto de Psiquiatria e Semiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora. Fundador e coordenador do NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde da UFJF).

Introdução
Este capítulo aborda um tema que tem sido um dos maiores objetos de preocupações e reflexões ao longo da história humana: a sobrevivência da personalidade após a morte do corpo físico. Este tópico é central às religiões em todo o mundo e tem sido foco de inúmeras e intermináveis discussões filosóficas e teológicas.

Ainda mais controvérsias existem quanto à possibilidade de estudar cientificamente a sobrevivência após a morte. Neste breve capítulo, naturalmente, não pretendemos esgotar o tema, mas apresentar uma introdução muito breve ao assunto, com algumas reflexões e estudos que têm sido feitos neste tópico tão importante.

A questão da existência ou não da vida após a morte do corpo físico tem habitualmente sido considerada como metafísica, portanto, não passível de abordagem científica, ficando restrita ao campo das religiões, da teologia e da filosofia. Embora, a princípio, muitos possam considerar absurdo mesmo cogitar a possibilidade de pesquisas sobre a vida após a morte, esse assunto tem sido foco de muitos cientistas e intelectuais de destaque nos últimos 150
anos. Infelizmente, esse debate é habitualmente completamente desconhecido dos pesquisadores e clínicos da atualidade.

A princípio, os ramos da ciência que estudam a mente humana deveriam incluir dentro de seu escopo de investigação o entendimento da natureza da mente humana.

Assim, a Psicologia (etimologicamente: ciência da alma ou da mente) e Psiquiatria (medicina da alma ou da mente) deveriam ter como um de seus principais objetos de estudo a origem do funcionamento mental e se este se extingue com a morte corporal e a conseqüente destruição do cérebro. No entanto, esses tópicos não são abordados, sendo muitas vezes deliberadamente evitados, pela maioria dos pesquisadores da psicologia e psiquiatria.

Habitualmente, ou se considera resolvida esta questão no sentido de que a mente é produto do funcionamento cerebral e se extingue com a morte deste, ou este assunto é considerado fora da possibilidade de uma investigação científica (Kelly et al., 2007).

Muitas das objeções à possibilidade de investigação científica da sobrevivência postmortem se baseiam em pressupostos epistemológicos habitualmente não mais aceitos pela filosofia da ciência contemporânea. Para que uma teoria ou hipótese seja passível de investigação científica, um ponto fundamental é que ela deva levar a predições que sejam testáveis empiricamente (ou seja, com base na experiência, na observação) (Popper, 1963; Chalmers, 1997; Chibeni & Moreira-Almeida, 2007). Assim, o trabalho inicial deve ser o de checar se tais predições empíricas ocorrem ou não.

Defendemos a idéia de que os modelos (hipóteses) sobre a mente e sua relação com o cérebro, com suas implicações de sobrevivência ou não sobrevivência da mente após a morte cerebral, podem ter implicações empíricas testáveis, tornando-as passíveis de investigação científica. Uma das previsões mais diretas decorrentes destas hipóteses seria a existência ou não de evidências do funcionamento mental de uma dada personalidade após a morte do corpo físico.

Dessa forma, um ponto capital a se salientar é que uma discussão sobre um tema tão importante e controverso, para ser produtiva, não deve ser guiada apenas por idéias pré-estabelecidas (sejam elas teorias científicas, religiosas ou filosóficas).

Uma questão geralmente negligenciada, mas que precisa assumir preponderância neste debate é se há evidências empíricas relacionadas à sobrevivência postmortem. Por incrível que pareça, há mais de um século, pesquisadores de alto nível têm se envolvido com esta questão e investigado evidências empíricas neste sentido.

Essas propostas de pesquisa científica sobre a sobrevivência após a morte tomaram impulso em meados do século XIX com o advento do espiritualismo moderno na Europa e nos EUA. Isto se deveu ao fato do espiritualismo ter trazido à tona muitos fenômenos supostamente indicativos da sobrevivência postmortem. Como aquele era um período de grande valorização da ciência, buscou-se aplicar a abordagem científica também nos controversos fenômenos mediúnicos e aparições (Alvarado, 2003).

Embora habitualmente desconhecidas por pesquisadores e clínicos da atualidade, pesquisas sobre a relação cérebro-mente, natureza da mente e sua sobrevivência após a morte foram fundamentais para a psicologia e psiquiatria nascentes na transição dos séculos XIX e XX. Tais tipos de pesquisas ocuparam por muitos anos vários dos pioneiros destas áreas. Alguns exemplos são William James, Carl G Jung, Frederic Myers, J. B. Rhine, Hans Eysenck e Ian Stevenson (Almeida e Lotufo Neto, 2004; Crabtree, 1993; Ellenberger, 1970; Eysenck & Sargent, 1993, Stevenson, 1977, 2007).


 Muitos outros cientistas de outras áreas, vários deles ganhadores de prêmios Nobel, também se dedicaram à investigação da natureza da mente e sua sobrevivência após a morte. Entre eles estão Cammille Flammarion, William Crookes, Alfred Russel Wallace, Ernesto Bozzano, Alexander Aksakof, Oliver Lodge, Lord Rayleigh, J. J. Thomson, Cesare Lombroso e Charles Richet.

Provavelmente a empreitada neste sentido que reuniu o maior número de pesquisadores foi a Society for Psychical Research (SPR), fundada por pesquisadores da Cambridge University, na Inglaterra, em 1882. Além da SPR, vários outros grupos de pesquisa foram e têm sido formados com objetivos similares.





A seguir são listados alguns dos principais exemplos:
American Society for Psychical Research, EUA (fundada por Richard Hodgson e William James em 1885),
Instituto de Metapsíquica de Paris (fundado por Charles Richet em 1919),
Laboratório de Parapsicologia na Duke University, EUA (fundado por J.B. Rhine em 1927), Division of Perceptual Studies na University of Virginia, EUA (fundado por Ian Stevenson em 1967)
e VERITAS Research Program na University of Arizona, EUA (Fundado por Gary Schwartz em 1997).

Embora nem todos os pesquisadores tenham chegado às mesmas conclusões, eles geralmente compartilhavam a aceitação da possibilidade de investigação científica da sobrevivência postmortem. Abaixo, transcrevemos textos de dois pesquisadores deste tema que, separados por mais de um século, compartilhavam esta mesma opinião.

A primeira transcrição, do francês Allan Kardec, pioneiro na busca de investigação científica dos fenômenos espirituais, expressa a crença na possibilidade de uma investigação empírica de temas considerados previamente como metafísicos, como a sobrevivência após a morte.

“As ciências só fizeram progressos importantes depois que seus estudos se basearam sobre o método experimental; até então, acreditou-se que esse método também só era aplicável à matéria, ao passo que o é também às coisas metafísicas. (...) Até ao presente, o estudo do princípio espiritual, compreendido na Metafísica, foi puramente especulativo e teórico. No Espiritismo, é inteiramente experimental. Com o auxílio da faculdade mediúnica, (...) mais bem estudada, o homem se achou de posse de um novo instrumento de observação.”
(p.20)
(Kardec, 1992 [1868])

A seguir, uma afirmação de Ian Stevenson, ex-diretor da Division of Personality Studies da University of Virginia, provavelmente o principal pesquisador do século XX sobre a questão da sobrevivência após a morte (Stevenson, 2007):

“A questão da sobrevivência do homem após a morte é certamente uma das mais importantes que alguém pode fazer a si mesmo. (...) A despeito de grandes dificuldades, esta questão é passível de investigação empírica”
(Ian Stevenson, 1977)

Que Evidências Existem para a Sobrevivência Após Morte?
Tendo em vista que muitos pesquisadores defenderam e ainda defendem a possibilidade de investigação científica da sobrevivência após a morte, que tipos de evidências estão disponíveis e a que conclusão é possível chegar a partir delas?

Ou seja, há evidências de vestígios da continuidade da atividade da personalidade após a desintegração cerebral?

Naturalmente, como em todos os temas controversos, não há uma resposta rápida e consensual. Também não pretendemos neste curto capítulo realizar um estudo aprofundado, nem explorar todas as nuances do tema. Conforme já explicitado, nosso objetivo se limita a introduzir o leitor ao tema e apresentar algumas reflexões a respeito.

Para uma leitura em maior profundidade, é recomendada a leitura das obras citadas nas referências bibliográficas.

Quando se procuram evidências a favor de uma dada hipótese, é preciso ter em mente qual grau de certeza se deseja alcançar. Importante ter em mente que não é possível encontrar a comprovação cabal e definitiva de qualquer hipótese em qualquer ciência, inclusive na física (Chalmers, 1997; Popper, 1963).

Esta ingenuidade epistemológica, a busca de uma prova definitiva, tem permeado o discurso de vários pesquisadores que comentam as pesquisas de sobrevivência postmortem (Moreira-Almeida, 2006).

Assim, o que se deve esperar das pesquisas científicas é o acúmulo de evidências a favor ou contrárias a uma dada hipótese. Idealmente, estas evidências devem ser de tipos variados e não apenas uma replicação continuada dos mesmos achados.

Ou, colocando-se do ponto de vista defendido por Karl Popper (1963), o falseacionsimo, a questão da sobrevivência postmortem poderia ser colocada de outra forma: há evidências que falseiam a hipótese de que a consciência é gerada pelo cérebro e desaparece com a morte física?

Assim, seria interessante o leitor agora se perguntar: “que evidências eu julgaria necessárias para colocar em xeque a hipótese monista materialista?” Ainda seguindo Popper, devemos lembrar que, para uma hipótese ser considerada científica, deve ser possível imaginar situações que, se confirmadas, nos levariam a rejeitar nossa hipótese.

Embora haja vários tipos de evidências sugestivas de vida após a morte do corpo físico, optamos por agrupá-las em três categorias: Mediunidade, Casos sugestivos de reencarnação e Experiências de Quase Morte.

A seguir, vamos apresentar uma breve descrição das pesquisas desenvolvidas nessas três linhas. Para uma descrição e análise mais aprofundadas, mas ainda assim introdutória, recomendamos o livro do filósofo Robert Almeder (1992). Para uma análise crítica mais pormenorizada e atual sobre a hipótese monista materialista com sua proposta de reduzir a mente a uma propriedade do cérebro, ver a obra Irreducible Mind de Edward Kelly et al. (2007).

Mediunidade

Mediunidade aqui é entendida como a situação em que uma pessoa acredita estar recebendo uma comunicação de uma fonte espiritual, não física. Neste sentido, a mediunidade tem estado presente ao longo da história em praticamente todas a civilizações, estando na base de grande parte das religiões. Entretanto, a busca de investigação científica desta experiência teve início apenas em meados do século XIX.

Naturalmente, grande parte das comunicações consideradas mediúnicas podem ser facilmente explicáveis como fraude ou exteriorizações de conteúdos inconscientes da mente de alguém tido como médium.

Devido à credulidade dos assistentes, comunicações genéricas, de conteúdo aplicável a qualquer pessoa, podem ser tidas como evidências de sobrevivência postmortem por pessoas fragilizadas psicologicamente pelo falecimento de um ente querido. No entanto, estas hipóteses são sempre levadas em consideração pelos investigadores da mediunidade. Do ponto de vista de evidência de sobrevivência, as comunicações só têm valor após a exclusão destas explicações iniciais.

Embora a maioria das supostas comunicações mediúnicas possa ser explicada por fraude ou manifestação do inconsciente do médium, há um bom número das que não podem ser descartadas com tanta facilidade (Gauld, 1982; Almeder, 1992).

Um primeiro tipo de comunicação mediúnica de interesse para nosso tema são aquelas que trazem informações verídicas, de conhecimento do indivíduo falecido, mas que são desconhecidas do médium.

Estas informações podem incluir detalhes sobre as circunstâncias da morte, apelidos de familiares ou fatos pitorescos conhecidos apenas na intimidade da família da personalidade falecida que supostamente se comunica pelo médium.

Fenômenos desse tipo foram descritos muitas vezes nas cartas psicografadas por médiuns como Chico Xavier e Divaldo Franco para pessoas que perderam entes queridos. Entretanto, infelizmente, as investigações publicadas a este respeito ainda são escassas e merecem ser replicadas com um aprimoramento metodológico (Severino, 1990; Franco & Pereira, 1994). Pesquisas rigorosas foram realizadas na Europa e nos EUA, com resultados positivos (Almeder, 1992; Stevenson, 1997; Schwartz, 2002). Estudos duplo-cego têm sido realizados para evitar que a sugestionabilidade de quem recebe uma mensagem o leve a considerar como verídica uma comunicação com conteúdo genérico (Roy & Robertson, 2001; Schwartz, 2002).

Algumas pessoas aceitam que as comunicações trazem informações verídicas desconhecidas pelo médium, mas não as atribuem à comunicação de uma personalidade desencarnada.

Alguns autores afirmam que os médiuns podem ter obtido estas informações telepaticamente dos familiares do falecido que foram até o médium para tentar obter uma comunicação. Este tipo de explicação se torna mais improvável quando a comunicação com informações verídicas ocorre mesmo na ausência de algum conhecido da pessoa falecida que supostamente se comunica (Gauld, 1982).

Um tipo de comunicação mediúnica que é ainda mais difícil de se explicar telepaticamente é quando o médium, durante o transe mediúnico, exibe habilidades não aprendidas previamente.

Neste sentido, uma das mais notáveis e raras é a da xenoglossia responsiva, quando o médium consegue conversar numa língua existente, mas que ele não aprendeu previamente (Almeder, 1992; Stevenson, 1977; Stevenson & Pasricha, 1979).

Outros tipos de habilidades não aprendidas, mas que eventualmente são exibidas por médiuns são a xenografia (escrever numa língua desconhecida pelo médium), pintura e poesia. O primeiro livro publicado pelo médium Chico Xavier, aos 22 anos de idade, continha 259 poemas atribuídos a 56 poetas de língua portuguesa já falecidos.

Este livro foi objeto de investigação de uma dissertação de mestrado em literatura que identificou a similitude estilística entre os poemas psicografados e aqueles que foram escritos pelos poetas em vida (Rocha, 2001).

Um outro tipo de habilidade aparentemente exibida por médiuns, mas pouco estudada é a identidade caligráfica da personalidade comunicante com a caligrafia do indivíduo quando ainda em vida (Perandréa, 1991).

Exemplos de outros fenômenos considerados mediúnicos que têm sido investigados são as correspondências cruzadas (diferentes médiuns, sem contato normal entre si, de modo independente comunicariam mensagens que, isoladamente, careceriam de sentido, mas que, quando agrupadas, formariam um todo coerente), aparições por ocasião da morte (Gauld, 1982; Stevenson, 1977) e manifestações físicas como materializações e movimentação de objetos. Estes últimos, os fenômenos físicos, foram alvo de muitos tipos de fraude, o que gerou uma forte desconfiança em relação a este tipo de manifestação (Gauld, 1982).

   Reencarnação
Os casos sugestivos de reencarnação têm sido muito investigados em relação à pesquisa de vida após a morte, pois a reencarnação de uma personalidade requer a sobrevivência dela após a morte do corpo físico para que possa se manifestar num novo corpo.

Os casos sugestivos de reencarnação tipicamente envolvem crianças de 2 a 4 anos que começam a falar sobre uma suposta vida passada. Em alguns casos, relatam detalhes que permitem identificar e localizar uma pessoa falecida que se encaixa na descrição da criança. Habitualmente estas crianças param de falar sobre esta suposta vida passada por volta dos 7 anos (Stevenson, 2000).

Muitas das afirmações feitas por estas crianças são bem específicas, evidenciando um conhecimento sobre a vida de uma pessoa falecida desconhecida da família, muitas vezes morando em cidades distantes.

Este conhecimento não parece ter sido obtido por meios normais de comunicação (Schouten & Stevenson, 1998; Stevenson, 2000). Como no caso da mediunidade, a primeira tarefa é excluir fraudes ou afirmações genéricas que podem ser tidas pelos familiares como específicas de uma dada pessoa.

Um dado que chamou a atenção de Ian Stevenson, que documentou mais de 2.000 casos deste tipo, é que as crianças, além de exibirem conhecimento de fatos relativos a uma pessoa já falecida desconhecida, também evidenciam habilidades, traços de personalidade e mesmo marcas de nascença relativas à pessoa falecida, à suposta vida passada da criança. Estes traços físicos e comportamentais têm sido foco de maior investigação nas últimas décadas (Stevenson, 1997, 1999; 2000; Almeder, 1992)


Experiências de Quase-Morte/ Experiências Fora do Corpo

As experiências de quase morte (EQM) são relevantes para a presente discussão pois envolvem a experiência de alguma independência da mente em relação ao corpo físico. Nas últimas décadas, as EQMs têm sido foco de um razoável número de investigações e debates.

As EQMs surgem em situações de uma ameaça à vida, real ou imaginada, e envolvem, entre outras características, a percepção de estar fora do corpo físico, sentimentos de paz, vivenciar uma grande lucidez e clareza mental, encontro com pessoas já falecidas e/ou seres de luz, visão retrospectiva de toda ou partes da vida e o retorno ao corpo físico (Greyson, 2007).

Muitos buscam explicar a EQM como sendo fruto exclusivamente de alucinações por alterações cerebrais num moribundo (hipóxia, uso de várias medicações...) ou como criações mentais baseadas nas crenças e mecanismos de defesa psicológicos dos pacientes. Entretanto, os proponentes destas teorias habitualmente não realizam pesquisas com EQM e não testaram as implicações empíricas de suas hipóteses.

Embora a vivência das EQMs varie de pessoa para pessoa e entre as diversas culturas, parece haver um núcleo da experiência que se mantém relativamente inalterado entre as diversas culturas e pacientes (Athappilly et al., 2006; Greyson, 2007; Kelly et al., 2007).

Do mesmo modo, a ocorrência e as características da EQM não se mostraram relacionadas com os níveis de oxigenação sangüínea ou com o número de medicações usadas pelos pacientes (Greyson, 2007; van Lommel et al., 2001; Parnia et al., 2001). Assim, não parece que a EQM possa ser explicada como sendo devida à expectativa dos pacientes, hipóxia ou polimedicação.

Uma das características que mais chama a atenção na EQM é o funcionamento mental lúcido durante a EQM. Num paciente agonizante ou numa parada cardíaca, o cérebro, a princípio, deveria estar não funcionante ou com funcionamento bastante precário, como no estado confusional agudo (delirium).

Pesquisas indicam que o EEG se torna isoelétrico (indicando ausência de atividade elétrica cerebral cortical) após 10 a 20 segundos de parada cardíaca. No entanto, muitos pacientes que tiveram EQMs durante paradas cardíacas referem que conseguiam pensar e ainda com maior clareza e lucidez do que em estado de vigília normal. Ou seja, estes dados sugerem que a consciência pode não ser necessariamente totalmente dependente do funcionamento cerebral (Parnia & Fenwick, 2002).

Uma outra característica das EQMs que parece ser relevante como evidência de independência da consciência em relação ao cérebro e da possibilidade de sobrevivência postmortem são os relatos de descrições feitas pelo paciente, posteriormente confirmadas, de situações que ocorreram durante uma EQM e que o paciente não poderia ter percebido com seus sentidos normais, mesmo se estivesse desperto (Sabom, 1998; Stevenson & Greyson, 1979).

Conclusões
Conforme descrito anteriormente, o objetivo deste capítulo não é esgotar o tema, mas apenas apresentar algumas reflexões e pesquisas feitas em torno da possibilidade de investigação científica da sobrevivência após a morte. Para os interessados em um aprofundamento nesta inquietante e desafiadora questão, recomendamos a leitura da bibliografia citada ao longo deste texto, especialmente os livros de Almeder (1992), Gauld (1982) e Kelly et al. (2007). Uma fonte preciosa, com acesso gratuito e que disponibiliza a íntegra dos textos originais de muitos dos principais pesquisadores da área é: www.survivalafterdeath.org/articles.htm


Vários tipos de pesquisas que buscam investigar evidências de sobrevivência após a morte foram brevemente apresentados e apontam para a possibilidade de uma abordagem empírica desta questão. Naturalmente, as conclusões variam quanto à força destas evidências no sentido de confirmarem a hipótese da sobrevivência postmortem.

O psicólogo David Lester, numa obra que se propõe investigar as evidências da sobrevivência após a morte concluiu que “a pesquisa revisada neste livro não consegue convencer que há vida após a morte” (p.214) (Lester, 2005; Moreira-Almeida, 2006). Por outro lado, outros autores, considerando a força e a variedade das evidências que sugerem sobrevivência, concluem como o filósofo Robert Almeder : “Nós agora temos (...) evidências empíricas convincentes sobre a crença em alguma forma de sobrevivência após a morte (p. ix). (...)

Nós temos aqui apoio para uma crença confirmada baseada puramente em evidências factuais. A multiplicidade de argumentos provê a evidência extraordinária necessária para a convicção” (p.256) (Almeder, 1992).


Esperamos que este breve capítulo possa estimular a investigação científica em áreas menos habituais e, por isso mesmo, mais desafiadoras e coerentes com um espírito legitimamente científico de pesquisa, de investigação rigorosa das questões mais intrigantes e relevantes (Chibeni & Moreira-Almeida, 2007).

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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

JOSEPH BANKS RHINE O PAI DA PARAPSICOLOGIA

*
LOUISA E. RHINE
A GRANDE PARAPSICOLOGA

Apesar da palavra Parapsicologia ter sido proposta pela primeira vez em 1889 por Max Dessoir, coube a J.B. Rhine a consagração da mesma como o estudo científico das capacidades extrasensoriais. 

Graças ao extraordinário trabalho de Rhine a Parapsicologia hoje é considerada mais um campo científico e possui diversos laboratórios e departamentos de estudos e pesquisas dentro das mais respeitadas universidades do mundo. 

Coube a Rhine a façanha de colocar o fenômeno paranormal, as ciências do espírito dentro das Universidades e no âmbito da ciência oficial. 

Joseph Banks Rhine nasceu em Waterloo, Pensilvania, em 1895. Conforme seus próprios relatos não era incomum entre os habitantes de sua cidade a crença em presságios, advertências ou mensagens procedentes de meios invisíveis. Assim, desde menino Rhine conhecia as histórias paranormais. Porém seu pai – inteiramente cético – ensinou-o a desprezar àquelas crença e histórias. 

Apesar disso o interesse de Rhine pelas pesquisas psíquicas permaneceu forte durante toda a sua vida. Conforme suas próprias palavras: "Meu interesse pelas pesquisas psíquicas originaram-se do desejo comum – penso- a milhares de pessoas, de descobrir um a satisfatória filosofia da vida, uma filosofia que pudesse ser considerada cientificamente sólida e, mais, que pudesse apresentar solução a urgentes questões relativas à natureza do homem e a seu lugar no mundo".

Afirmando não serem satisfatórias a respostas dadas pelas religiões nem pelo materialismo, Rhine empreendeu-se na busca de qualquer fato desafiador que pudesse facilitar a compreensão da pessoa humana e de suas relações com o universo. Seu total engajamento as pesquisas psíquicas foi em muito incentivado pelo contato com os trabalhos sobre telepatia de Sir Oliver Lodge.

É interessante também transcrever as impressões de Rhine sobre uma conferência de Sir Arthur Conan Doyle sobre o Espiritismo: "Fui com o espírito bastante prevenido, quase disposto a escarnecer, e saí com a mesma disposição. 

Mas, a despeito de minhas dúvidas, trouxe a impressão, que ainda guardo, do que a crença de Sir Arthur lhe fizera. Fizera-o supremamente feliz. Banira-lhe as dúvidas religiosas e fizera-o um cruzado, pronto a fazer-se de tolo, se necessário, a favor do que acreditava ser um grande princípio". 

Após completar seu doutorado em Biologia pela Universidade de Chicago e já casado com a Dra. Louisa Ella Rhine, Rhine foi convidado pelo prof. William McDougall (psicólogo altamente interessado nos fenômenos paranormais) para integrar a equipe do Departamento de Psicologia da Universidade de Duke (Durham, Carolina do Norte). Rhine iniciou suas investigações tentando estabelecer evidências da sobrevivência depois da morte utilizando as faculdades da médium Eileen Garett.

Encontrando muitas dificuldades em estabelecer cientificamente e irrefutavelmente a veracidade das comunicações mediúnicas, Rhine pouco a pouco derivou seus esforços para a comprovação da existência das capacidades extrasensoriais dos seres humanos. 
 
Sua tese era que, uma vez aceita a existência de tais capacidades, seria mais fácil adentrar em outros campos mais espinhosos como a sobrevivência da alma, comunicação com os mortos etc. 

Assim entre 1928 e 1934 Rhine, juntamente com sua esposa Louise Rhine, o Dr. J. Gaither Pratt, o Dr. Helge Lundholm e o Dr. Karl E. Zener, realizou centena de milhares de experimentos logrando a comprovação estatística da existência de capacidades extrasensoriais no ser humano.

Em 1934 Rhine publica sua monografia Extrasensory Perception After Fifty Years que provocou uma intensa reação no público, tanto no sentido de incentivar novas pesquisas e outros grupos de pesquisas quanto pressões para que a universidade encerrasse seu patrocínio as pesquisas de Rhine. Assim nasceu o Duke Parapsychology Laboratory independente da Universidade de Duke porém com todo o acervo e histórico de pesquisas parapsicológicas.

Apenas como uma amostra do grande trabalho de Rhine vale destacar que entre os anos de 1930 e 1940 foram realizados 2.966.348 ensaios de telepatia, 129.775 ensaios de clarividência. 

A coroação dos esforços de Rhine veio por etapas: em 1937 o Congresso Anual do American Institute for Mathematical Statistics conclui que as técnicas e métodos estatísticos utilizados por Rhine são totalmente corretos. 

Em 1938 o Congresso Anual da American Psychological Association declara como legitimamente científica e pertencente ao campo da psicologia a investigação da ESP. 


 Em 1965 Rhine deixa a Duke University na qualidade de professor jubilado e se integra totalmente a Foundation for Research on the Nature of Man (FRNM), instituição que havia estabelecido em 30 de junho de 1962. É criado então, dentro da FRNM o Intitute of Parapsychology que substituiu o Duke Parapsychology Laboratory e recebeu todos seus equipamentos e arquivos. Porém, o reconhecimento definitivo da Parapsicologia e de todo o grande trabalho de Rhine só chegou em 30 de dezembro de 1969 quando a American Association for the Advancement of Science aceita a filiação da Parapsychological Association em seus quadros reconhecendo formalmente a parapsicologia como matéria cientifica e a função PSI como um dos elementos constituintes da natureza humana. 

 Rhine veio a falecer em 20 de fevereiro de 1980, aos 84 anos, após uma vida inteira dedicada às pesquisas parapsicológicas. Com certeza, o Dr. Joseph Banks Rhine tem lugar de destaque entre as personalidades que alavancaram as ciências do espírito neste século.
*
"No curso de 70 anos de tais estudos de mediunidade alguns dos sábios mais eruditos do mundo, bem como inúmeros outros de menor reputação, convenceram-me de constituírem-se essas mensagens dos espíritos prova aceitável da existência continuada de personalidades incorpóreas, de almas sem corpo. "
(J.B. Rhine)

onde tem livros dele para baixar

LOUISA E. RHINE - ANAIS OCULTOS DO ESPÍRITOS

Fonte : Autores Espiritas
(no link acima tem o livro para baixar)

Apresentação do Tema:
  Nos últimos tempos, têm aparecido aqui e ali, alguns religiosos realizando conferências e debates na televisão sobre a Parapsicologia, e de uma forma anticientífica, atacam ferozmente o Espiritismo e os Espíritas. 

Eles alegam que a Doutrina Espírita nada tem de religião e que não tem respaldo científico, afirmando, o pior: que não existem Espíritos e nem tampouco estes se comunicam com os vivos. Estes são alguns disparates.

   Esclarecemos que a Parapsicologia científica surgiu em 1930, com os Dr. Joseph Banks Rhine e Dra. Louisa Ella Rhine. O ilustre casal de biologistas que pertenceu ao Departamento de Psicologia da “Duke University”, em Durham, no Estado da Carolina do Norte, Estados Unidos. 

O Dr. McDougall, notável psicólogo britânico que estava organizando o Departamento de Psicologia da citada Universidade convidou o casal Rhine para desenvolver a pesquisa psíquica, com o estudo dos fenômenos paranormais, particularmente na questão da sobrevivência após a morte.

  O Departamento de Psicologia queria saber sobre a comunicação telepática do pensamento entre os encarnados e se devia inserir no contexto científico. Para tanto, também, a dos espíritos com os encarnados conhecida de comunicação mediúnica e, que, na linguagem Espírita, é conhecida de intercâmbio espiritual.

  Os citados mestres realizaram, com muita honestidade, as pesquisas dos fenômenos paranormais que acontecem no ser humano, afastando-se completamente dos seguimentos religiosos que, através do tempo, davam explicações atreladas ao dogmatismo.

  Eles apresentaram ao mundo científico uma categoria de fenômenos, enfocando a função PSI, que abarca um complexo processo de intercomunicação-extra-sensório-motor com o mundo exterior mediante as três categorias essenciais: a percepção extra-sensorial (ESP) a Pisiconesia (PK). e a função Psi-Theta.  

A (ESP) abrange as situações na qual um ser vive e percebe informação do outro (telepatia), ou capta vendo algo espiritual em seu derredor físico (clarividência), ou conhece acontecimentos futuros (precognição). 

   São, também, conhecidos como fenômenos Psi-Gamma, de caráter puramente subjetivo. Gamma é a terceira letra do alfabeto grego e inicial de Gnosis, que significa o conhecimento inicial.  Já a (PK) Psi-Kappa, décima letra do mesmo alfabeto grego, designa Kinesis, ou ação. 

Este é o fenômeno objetivo, que inclui situações nas qual um sujeito pode provocar modificações tanto em sistemas estáveis (em objetos metálicos), como a influência da mente desencarnada produzindo fenômenos físicos conhecidos mundialmente, como de casas mal assombradas. 

  Para alguns pesquisadores do Poltergeist, (que em alemão significa polter: ruído; geist: espírito), é um fenômeno físico produzido pela mente e pela vontade dos Espíritos. 

Por último, a função Psi-Theta, que é o conjunto de fenômenos paranormais relacionados com a sobrevivência e a ação de presumíveis entidades desencarnadas ou agentes Theta.

  Ele explica que a alma do chamado morto vem se comunicar com os vivos relatando as suas experiências de alegria ou de sofrimentos após a morte física. No Espiritismo, isso, acontece, sempre, com a participação de médiuns.

  Em toda a série de fenômenos pesquisados pelo casal Rhine, chegou-se à conclusão de que todas as funções desde os de natureza subjetiva Psi-Gamma, como a telepatia, retrocognição, e a clarividência, são todos explicados.  

Isso, também, acontece com os de Psi-Kappa, de natureza objetiva como de casas mal assombradas, materialização de Espíritos e, por último, os de Psi-Theta, das comunicações dos Espíritos que foram testados como reais.

  A partir destes fenômenos confirmaram-se as informações dos Livros das tradicionais religiões como: O Livro dos Mortos, do antigo Egito; o Livro Tibetano dos Mortos; A Bíblia no Velho e no Novo Testamento (que oferece uma farta história dos povos e dos médiuns como: profetas, sensitivos, pitonisas, místicos, videntes, pessoas que viram e conversaram com os seres do mundo espiritual e que são aceitas, ainda hoje, de forma universal).

  Desta forma, lembramos das extraordinárias pesquisas realizadas com vários médiuns em Paris, pelo eminente cientista e educador Allan Kardec, editando uma obra conhecida, mundialmente, com o nome de “O Livro dos Médiuns”. Kardec pesquisou em torno de 80 tipos de mediunidade, classificando didaticamente os fenômenos paranormais na seguinte ordem: Fenômenos de efeitos físicos e outros os de efeitos intelectuais.

  Nos primeiros temos os fenômenos espíritas de efeitos físicos ou materialização de Espíritos que na Parapsicologia corresponde aos fenômenos Psi-Kappa e no último o fenômeno psíquico e das comunicações espirituais inteligentes (Psi-gamma e Psi Theta), também da Parapsicologia. Estes pesquisadores iniciaram a era da comunicação com o Espírito Imortal.

  Todos os pesquisadores e parapsicólogos honestos que se seguiram após Kardec e Rhine são unânimes em afirmar que o Espírito tem uma mente que sobrevive e que esta pode interferir na saúde e na doença dos seres humanos. 

Assim, cremos que está de parabéns o Espiritismo e a Parapsicologia não dogmática que avançam no mundo contra os falsos profetas materialistas que não enxergam, ainda, que chegamos à era do Espírito.

Presidente da ADE-SE, Jornalista, Radialista, Psicoterapeuta Transpessoal, Auditor Público (aposentado).
    João Batista Cabral
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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Forma-Pensamento



Léo Denis no livro “O Problema do Ser, do Destino e da Dor”, escreve o seguinte:
“Os nossos atos e pensamentos traduzem-se em movimentos vibratórios e seu foco de emissão, pela repetição freqüente dos mesmos atos e pensamentos, transforma-se, pouco a pouco, em poderoso gerador do bem ou do mal.
O ser classifica-se, assim, a si mesmo pela natureza das energias de que se torna o centro irradiador..”

André Luis no livro “Entre o Céu e a Terra”, escreve:
“Todavia, quem de nós não é responsável pelas idéias que arroja de si mesmo... Nossos desejos são forças mentais coagulantes, materializando-nos as ações que, no fundo, constituem o verdadeiro campo em que nossa vida se movimenta.... A forma de nosso pensamento dá feição ao nosso destino.”


Um dos mais notáveis aforismo da Psicologia oriental é:
 “Para onde quer que a mente vá (ou a que se liga), isto ela se torna.”


“O que se identifica com a Virtude
será acolhido pela Virtude.
O que se identifica pelo vício
será acolhido pelo vício...”
do livro Tao Te King de Lao Tse.



No livro “Leitura de Auras e Tratamentos Essênios” de Anne Meurois-Givaudan – Ed.Pensamento, temos o seguinte:
“Como caracterizar uma forma-pensamento?
Trata-se obviamente de um pensamento, mas de ordem específica. A forma-pensamento retira sua força do caráter repetitivo de sua emissão...

Um exemplo: uma forma-pensamento de cólera envia sua mensagem ao terceiro chacra, pois se trata de uma emoção, que vai retransmiti-la à vesícula.... mais tarde (pode se transformar em ) cálculos na vesícula.

Desde que um pensamento seja emitido com força, seja ele de alegria, de amor, de cólera, de raiva ou de medo, o processo é sempre o mesmo. Quanto maior a força que o emite, mais rapidamente ele atravessará as diferentes auras, mais ou menos como um raio risca o céu escuro e nebuloso. Se a emissão é clara, bonita e luminosa, reforçará as zonas atravessadas e as consolidará. Se, pelo contrário, o pensamento é sombrio, pesado, abrirá brechas nas diferentes auras (os corpos), fragilizando-as. Essa é a primeira etapa na ação das formas-pensamento.

No caso de pensamentos de baixa vibração, uma parte deles permanecerá ao redor da pessoa que os gerou, nutrindo assim criaturas do éter, ávidas em energias de meso, de cólera, de violência ou de outro sentimento semelhante. Pouco a pouco, essas criaturas farão parte da existência da pessoa e um círculo vicioso se instalará entre eles....

Se os pensamentos forem de natureza elevada, reforçarão as cores da aura por meio de um brilho especial... esses pensamentos vão atrair outros como poderosos imãs, e quanto mais a pessoa emitir amor, alegria, confiança, ... seus corpos sutis serão nutridos permanentemente por essa fonte de comunicação.

ao mesmo tempo, uma parte desses pensamentos viajará para bem longe de seu emissor. Esses pensamentos vão encontrar um receptáculo chamado, em certas tradições, de egrégora. Existe uma egrégora específica para cada tipo específico de pensamento emitido...

...enviar um pensamento de desinteresse ou de desencorajamento, a egrégora que o receber e se nutrir dele imediatamente vai ser atraída por outra pessoa que, tendo empreendido uma ação em outro ponto do planeta, se sentem desencorajadas. A egrégora vai reforçar esse desencorajamento. Do mesmo modo, pensamentos límpidos, refletindo amor, alegria, esperança e ternura, comunicarão um impulso a todos que tentam trabalhar nesse sentido... irá alimentar o Amor e dinamizará os que tentam instaurar mais humanidade.

...É preciso saber simplesmente que, quando baixamos os braços, outros baixarão conosco, e que, quando nos pomos de pé interiormente, haverá olhares brilhando de esperança e de alegria.”



Da mesma forma que auras individuais se atraem ou se repelem devido suas naturezas, o mesmo ocorre em relação a um ambiente cuja atmosfera pareça ser atraente ou faz sentir inquietação ou repulsão.

A aura por sua capacidade de expansão e projeção, tende a impregnar o meio ambiente onde se encontra, e principalmente e com muito mais intensidade, no ambiente onde vive e atua.

A irradiação eletromagnética da aura, deixa marcas ou assinatura com suas qualidades e características, não somente no ambiente mas também nos objetos com os quais lida, que pode ser percebida por médiuns capazes de psicometria.

Os pensamentos e sentimentos por serem formas materiais elétricas espalham-se pelo espaço, tendo ainda a capacidade de se cristalizarem em formas e de agirem como se tivessem vida própria interferindo no plano material.


No livro Nosso Lar de André Luis encontramos o seguinte sobre o Pensamento:
 “...cada espírito é compelido a manter e nutrir as criações que lhe são peculiares. Uma ideia criminosa produzirá gerações mentais da mesma natureza; um princípio elevado obedecerá à mesma lei...

O pensamento é força viva, em toda parte; é atmosfera criadora que envolve o Pai e os filhos, a Causa e os Efeitos... Nele, transformam-se homens em anjos, a caminho do céu ou se fazem gênios diabólicos, a caminha do inferno.

... o pensamento, em si é a base de todas as mensagens silenciosas da idéia, nos maravilhosos planos da intuição, entre os seres de toda espécie...”


do livro Mecanismos da Mediunidade - André Luiz
"Emitindo uma ideia, passamos a refletir as que se lhe assemelham, ideia essa que para logo se corporifica, com intensidade correspondente à nos¬sa insistência em sustentá-la, mantendo-nos, assim. espontâneamente em comunicação com todos os que nos esposem o modo de sentir.

É nessa projeção de forças, a determinarem o compulsório intercâmbio com todas as mentes en¬carnadas ou desencarnadas, que se nos movimenta o Espírito no mundo das formas-pensamentos, cons¬truções substanciais na esfera da alma, que nos liberam o passo ou no-lo escravizam, na pauta do bem ou do mal de nossa escolha. Isso acontece porque, à maneira do homem que constrói estradas para a sua própria expansão ou que talha algemas para si mesmo, a mente de cada um, pelas corren¬tes de matéria mental que exterioriza, eleva-se a gradativa libertação no rumo dos planos superio¬res ou estaciona nos planos inferiores, como quem traça vasto labirinto aos próprios pés."


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